Caçadores de água

 

 

No planeta Terra, onde a água predomina, o Homem passou a caçar o maior bem da vida, cuja abundância, desproporcional ao descaso, compromete a existência, em suas múltiplas formas. No Brasil, região como o Nordeste, historicamente castigado, os reservatórios diminuem. Nascentes do Cerrado, que alimentam a Bacia do rio São Francisco, são degradadas em meio ao ritmo acelerado do agronegócio.

 

Eventos climáticos desregulam as chuvas. No Sul, a chuva inunda, no Nordeste, o Sol esturrica a terra. As áreas de desertificação no semiárido brasileiro atingem cerca de meio milhão de pessoas, em 20 mil km quadrados de solo espalhado entre o Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco. O cenário se complica com o alastramento da desidratação numa área de 230 mil quilômetros quadrados, degradada, ou em alto risco de degradação. Equivalente a mais que todo o estado do Ceará.

 

 

Por: Liliana Peixinho*

 

O Engenheiro Agrônomo, Nizomar Falcão, nessa entrevista especial e exclusiva, aprofunda, cientificamente, em linguagem acessível, os múltiplos problemas que envolvem: acesso, desperdício, gestão, relação comunitária, domínio capital, fontes alternativas para preservação de matrizes, em contextos de demandas reprimidas históricas, para a garantia da água, como direito básico. De forma transparente, corajosa, linkada aos grandes desafios de preservação da vida, planeta afora, o diálogo entre um professor e uma jornalista, especializados em foco socioambiental, traduz inquietações, revela compromissos e denuncia gestões tortas, em cursos dágua.

Nascido em Mossoró, Rio Grande do Norte, o professor é desses nordestinos típicos, de nos orgulhar ( com sua licença aqui pra valorizar a fonte). Homem simples, tranquilo, corajoso, fala mansa, olhar reto, o engenheiro saiu do Brasil para aprofundar sua paixão pelos estudos sobre água e seus múltiplos sentidos de vida, em Milão, Itália. Com a sapiência de um eterno pesquisador, curioso, disciplinado, o engenheiro, que também é escritor, nos brinda, de forma generosa, com informações inéditas, contexualizadas em valores profundos sobre uso, controle e desafios do maior bem da vida: a água.

De forma séria, e em compromisso com pautas em desafio mundial, ele nos acompanha Brasil e mundo afora, como um caçador de água. Estivemos juntos, em companhia de dezenas de especialistas de 36 países, reunidos em Fortaleza, Ceará, entre 21 e 26 de novembro de 2015, ano marcado por crimes ambientais gigantes como: o rompimento da Barragem da Samarco/Vale, e seu mar de lama devastando vidas sobre o rio Doce e cidades de Minas Gerais, Espírito Santo e sul da Bahia; os incêndios devastadores de ecossistemas da Chapada Diamantina; assassinato e perseguição a centenas de ambientalistas; escândalos de desvios de recursos de obras polêmicas no rio São Francisco, e um rosário de problemas em cadeias desarmoniosas.

O estado do Ceará foi palco mundial de debates sobre água, em evento que reuniu o O2 Encontro Intercontinental sobre a Natureza, Diálogos sobre Governança da água e, Encontro Internacional de jornalistas especializados em Meio Ambiente. Países como Canadá, África do Sul, Espanha, Chile, México, Suécia, Argentina, Brasil, e dezenas de outros, participaram de trabalhos que mobilizam o Brasil e o planeta Terra, em busca de soluções para garantir a vida.

Autor de diversos livros sobre água e seus contextos de vida, o cientista Nizomar fez exposição sobre desafios e caminhos da água para a preservação da vida.

Nizomar explicando como se dá a formação de áreas de desertos no Nordeste Brasileiro

 

Nizomar é desses cientistas onde a informação vem como carga leve da experiência em campo aberto, rico em imagens reais. Estudioso eterno de um problema que conhece de perto, como nordestino e morador do Ceará, o engenheiro tem currículo rico. Melhor que isso, coloca em prática o que aprendeu como: PhD em Antropologia da Contemporaneidade (Universidade de Milão – Itália); Mestre em Agronomia – Fitotecnia pela Universidade Federal Rural do Semiárido; Especialista em Gestão Pública pela Universidade Estadual do Ceará (Uece); Especialista em Irrigação e Drenagem pela Universidade Federal da Paraíba; e Engenheiro Agrônomo pela Escola Superior de Agricultura de Mossoró). Autor de livros escritos ao sabor do cotidiano, vivido com experiências in loco, nas próprias comunidades alvo de suas pesquisas, o pesquisador inspira confiança, credibilidade, sustentadas em práticas onde a comunidade sempre foi o alvo do seu trabalho.

 

Destaques da entrevista

A água usada pelos índios, in natura, antes da chegada da “civilização” era um bem da natureza, tornou-se uma mercadoria pelas ações antrópicas. Ao se fazer esta transição, quebrou-se uma regra universal: aquela na qual os rios e as florestas eram sagradas e possuíam altíssimo valor, mais não tinham preço. Com a degradação dos bens naturais, a água adquiriu um valor de troca e incorporou a precificação. A eficiência tem a ver com competência técnica. A equidade com decisão política.

E chegou a “ civilização” ameaçando o cuidado nativo com a pureza d’água

 

A operação da polícia federal “Vidas Secas” revela que o discurso inflamado de transposição das águas do rio São Francisco, para o Nordeste setentrional, é apenas uma falácia. O que parece é que por trás desta “panaceia” existe um grande “lobby” de consultores, empreiteiras e políticos desonestos. O conluio de autoridades com estes grupos de pressão influenciam os espaços decisórios dos profissionais do poder público, que aprovam aditivos aos contratos em desacordo com as finalidades técnicas. Estes aditivos superfaturados embutem os recursos destinados aos enriquecimentos ilícitos e ao financiamento de campanhas eleitorais. É a indústria da seca renovada, reinventada. Deste modo é uma conspiração que penaliza, não somente as pessoas que precisam da água das bacias doadoras, mas também das bacias receptoras, que tem que pagar um preço abjeto.

 

Obras abandonadas, em 2013- Sertânia (Pernambuco). Desperdício de recursos

 

O modelo cultural e produtivo dominante foi até agora centrado simplesmente na identificação do “desenvolvimento” (modelo de progresso baseado na exaustão dos recursos naturais), com o crescimento dimensional quantitativo, no qual se enfatiza a escassez e as necessidades, sempre de forma superestimadas, como forma de obter mais recursos hídricos. Não existe uma busca por geração de produtos menos consumidores de água, mais por mais água, não importando a que distância ela esteja, fazendo com que sejamos eternos caçadores de água.

 

Floresta ‘palito” monocultura capital devastadora

Eventos catastróficos como o que aconteceu no rio doce é o efeito colateral do “desenvolvimento”. Os governos, na sua ânsia, de promoção do “desenvolvimento” acabam permitindo ou relaxando nas medidas de segurança, protetivas e mitigatórias. Acabam permitindo construção de barragens ou outras obras de engenharia em locais de perfil geológico incompatível.

Os processos naturais e as atividades humanas, mediante modificações calamitosas da superfície terrestre, exercem pressões insustentáveis sobre o ambiente. Os estudos de impacto ambiental acabam sendo desleixados no tocante às medidas de prevenção e mitigação.

O cuidado dispensado a estes aspectos deve estar inserido no contexto do progresso sustentável de cada território. Deve ser um modelo que se baseie no princípio de integração entre ambiente e progresso, orientado a obter critérios de equidade, precaução, prevenção, partilha das responsabilidades, reciprocidade ambiental e participação. O uso dos recursos naturais deve ser parcimonioso, especialmente, daqueles não renováveis, de modo a não danificar de maneira irreversível o patrimônio natural ou cultural. Responsabilização e participação devem serem compreendidos como métodos de educação.

Vidas perdidas em mar de lama rio Doce abaixo.

O potlatch é o fenômeno cultural mais relevante. Era uma cerimônia dos índios americanos, na qual se praticava uma troca agressiva e perdulária de bens. Uma destruição ritual de bens acumulados como forma de demonstração de superioridade. A superioridade estava em não possuir valores maiores que os demais membros das tribos. A glória não estava na riqueza mais no desapego. Um plano simbólico de honra.

 

Os eventos das organizações não governamentais precisam estar desvinculados de governos para que possam discutir os problemas da sociedade civil sem amarras. Desta forma eles se tornam  mais afirmativos, mais propositivos, mais questionadores. A dificuldade está em viabilizar grandes eventos desta natureza sem o concurso destes patrocinadores. Eventos desta natureza precisam se libertar das amarras e do controle das suas agendas de programação.

 

Entrevista completa

Liliana Peixinho – Como especialista em água e seus desafios comunitários, como observa

os programas de acesso a esse bem natural, a nível mundial?

 

Nizomar Falcão – A água na língua Tuareg (povo berbere constituído por pastores seminômades, agricultores e comerciantes habitantes do deserto do Saara) se chama “aman” (plural sem singular) que geralmente está associado a “iman”, igualmente sem singular, que significa “alma” e que pode ser traduzida como vida, dando origem ao adágio popular “água é vida”. Este enunciado é frequentemente seguido de “akh isudar” (leite da nutrição ou leite que nos alimenta). Esta pluralidade testemunha a importância da água para regiões áridas, semiáridas e desérticas do planeta e a sua natureza livre.

No semiárido brasileiro, a água, está no imaginário popular, por conta de sua eterna busca, seja ela transportada no lombo de um jumento para as atividades domésticas, que carregam ancoretas (20 litros), às vezes substituído pelo boi para atendimento coletivo por meio de carro-pipa (600 litros).

Mulas e jegues são aliados na caça e distribuição d’água em cidades do interior Foto: Liliana Peixinho

Nas zonas semiáridas, a água não forma grandes sulcos na terra para escoamento da água das chuvas. Os rios são muito diferentes daqueles existentes nas regiões mais chuvosas, como é o caso dos rios Amazonas, Paraná, Madeira-Mamoré, Purus, Tocantins etc. No semiárido brasileiro, se destacam os rios perenizados pelos grandes barragens, como é o caso do Jaguaribe e Piranhas-Açu. A grande exceção é o rio São Francisco, considerado como o rio da Integração Nacional pelo fato de aliar o Sudeste e o Centro-Oeste com o Nordeste.

Pelo exposto pode-se admitir que os modernos programas de oferta de água às populações estão em desacordo com o código dos costumes, na medida em que a água deixou de ser um bem livre, um direito, para ser um negócio. Quanto menos água mais caro ela custa. É a lei da oferta e da procura da economia.

 

Leito de rio seco – Sertão da Bahia entre Cansanção e Monte Santo

 

LP- O planeta Terra é em sua parte maior, água. Porque tantos problemas em garantir o uso com eficiência e equidade?

 

NF -O problema de escassez da água, em nível mundial, é decorrente de condições geográficas e econômicas. Isto faz com que aproximadamente 2 bilhões de pessoas tenham acesso limitado a água de qualidade. A problemática se acentua com as manipulações jurídico-econômicas. Em vez das instâncias governamentais administrarem os recursos hídricos pela ótica da “demanda”, optam fazê-la pela “oferta” como um modo de aumento da arrecadação financeira pelas empresas públicas e privadas. Isto se insere numa lógica, internacional, que atribui à água um valor econômico. As ferramentas de outorga e cobrança são modeladas e formuladas  orientando-se exclusivamente pelo controle econômico, como argumento de uso racional.

A água usada pelos índios, in natura, antes da chegada da “civilização” era um bem da natureza, tornou-se uma mercadoria pelas ações antrópicas. Ao se fazer esta transição, quebrou-se uma regra universal: aquela na qual os rios e as florestas eram sagradas e possuíam altíssimo valor, mais não tinham preço.

Com a degradação dos bens naturais, a água adquiriu um valor de troca e incorporou a precificação. A eficiência tem a ver com competência técnica. A equidade com decisão política.

 

Reservatórios, como o do Castanhão – Ceará, com baixos níveis d’água

LP- Em 2001, o Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, entregou na Unesco, em Paris, o dossiê Rio São Francisco, com informações sobre o seu estado de agonia, e ao então, desejo de reivindicar o título de Patrimônio Natural. De 2001 para cá a situação do Velho Chico, em processo de degradação contínua, só piora. Seja em escassez, poluição, esgotos jogados diretamente nas águas, desmatamento, falta de tratamento, problemas de garantia de acesso ao que restou, para quem mais precisa: os ribeirinhos. Em paralelo, observamos caudalosos volumes de recursos alocados em nome do projeto de Transposição, cujas obras inacabadas se arrastam, por anos e anos, desde a proposta da transposição, por volta de 2005. Qual o sentido e a viabilidade de projetos como esse, para garantir água a quem prometido?

 

Mobilização nacional em Cabrobó, Pernambuco, Outubro de 2005, pela Revitalização do rio São Francisco, contra o Projeto de Transposição.

Entre a Capela da Fazenda São Sebastião, e a casa da família de Dona Isaura e seu Lídio, em Cabrobó, milhares de pessoas se espremiam para pedir a Revitalização do Velho Chico.

Caravanas do Nordeste e de todo o Brasil chegaram até a                Fazenda São Sebastião, Cabrobó- Pernambuco, para a mobilização da água vida da vid

Ribeirinhos, agricultores, pais de famílias não mediram esforços para viajar, em paus de arara, até Cabrobó

Animais mortos de sede nas estradas à procura d’água

NF -A operação da Polícia Federal “Vidas Secas” revela que o discurso inflamado de transposição das águas do rio São Francisco, para o Nordeste setentrional, é apenas uma falácia. O que parece é que por trás desta “panaceia” existe um grande “lobby” de consultores, empreiteiras e políticos desonestos. O conluio de autoridades com estes grupos de pressão influenciam os espaços decisórios dos profissionais do poder público, que aprovam aditivos aos contratos em desacordo com as finalidades técnicas. Estes aditivos superfaturados embutem os recursos destinados aos enriquecimentos ilícitos e ao financiamento de campanhas eleitorais. É a indústria da seca renovada, reinventada. Deste modo é uma conspiração que penaliza, não somente as pessoas que precisam da água das bacias doadoras, mas também das bacias receptoras, que tem que pagar um preço abjeto.

LP- Quais as origens e os efeitos de áreas desertificadas Brasil e outros países, Planeta Terra afora? O que deve ser feito para evitar, mitigar?

NF -A desertificação é um processo de modificação ambiental promovido pelas ações antrópicas que leva à formação de uma paisagem árida ou a um deserto, ocasionadas pelo manejo inadequado dos recursos naturais. Ela também é fruto de uma inconsequência ideológica que atribuía às grandes áreas preservadas do semiárido brasileiro a denominação de “latifúndios improdutivos” como se preservar a natureza não fosse uma produção. Ao fracionar estas áreas impróprias para agricultura, ao retirar a vegetação que protegia os solos rasos, ao provocar queimadas que exterminavam a flora e a fauna, acabaram por contribuir profundamente para o fenômeno de desertificação.

Terra esturricada onde nem o umbuzeiro, Rei da Seca, sobrevive.

As práticas mitigatórias tem que estar embasadas em práticas tradicionais e em conhecimentos étnicos das populações residentes atingidas pelos processos degradantes. As intervenções do Estado não podem atropelar a organização cultural e social no sentido de possibilitar a convivência com o semiárido. Para mitigar as atividades humanas é recomendável deixar estas áreas em pouso para sua recuperação. Cabe aos seres humanos subsidiar a natureza, numa reciprocidade para com o ambiente, remunerando as pessoas dependentes destes espaços pelo “lucro cessante” (reparação dos danos materiais efetivamente sofridos por cessarem os benefícios do espaço geográfico).

A mitigação destas áreas passa pela recuperação do ecossistema caatinga – um bioma único, por um esforço para recompor aquilo que foi degradado, principalmente, pelo binômio boi-algodão. Mitigar agora, significa, reaver as “áreas latifundiárias improdutivas” pela adequação destes territórios a sistemas agrosilvopastoris, pela implantação de matas ciliares, pela construção de barragens de sedimentos para conservação das bacias hidrográficas, pela intocabilidade das fontes naturais, pela construção de cordões de contorno etc. Enfim, temos que fazer o caminho de volta.

Sem mata em volta da água o ambiente fica insustentável, sem vida.

A complexidade aumenta pelas mudanças climáticas que estão promovendo uma alteração em escala global dos fenômenos atmosféricos e que tem impacto direto sobre os planos de combate à desertificação. Nesses novos tempos, não basta apenas mitigar, é necessário, também, avançar sobre medidas adaptativas.

LP – O Brasil pratica a cultura da geração de energia, em hidroelétricas, em larga escala. Num pais com tantas outras fontes alternativas os custos sociais da exploração dessa matriz natural não tem sido desproporcional aos ditos ganhos econômicos, com perdas de ponta a ponta, para comunidades como: indígenas, quilombolas, pequenos agricultores?

NF -Se antes a energia hidroelétrica era praticamente a única forma de se produzir energia em larga escala, hoje não é mais imprescindível, desde que exista uma decisão de mudar a matriz energética do Brasil. As energias renováveis, por exemplo, o álcool, usado maciçamente para abastecer a frota de veículos do Brasil, contribuiria decisivamente minimizar os efeitos sobre o clima e a poluição dos grandes centros. Substituir a matriz fóssil pela bioenergia, evitaria que milhões de toneladas de CO2 fossem lançadas diariamente no ambiente.

A região semiárida do Brasil, com uma posição privilegiada em relação ao equador, propicia uma condição extraordinária para produção de energia solar, pela angulação em que os raios solares atingem a superfície deste amplo território.

Energia alternativa solar no lugar de hidroelétricas precisa ser potencializada

A imensa costa brasileira (aproximadamente 5.000 km) podia ser amplamente explorada para produção de energia eólica, assim como, o próprio oceano atlântico, entre os estados do Rio Grande do Norte e Ceará, que não possuem regiões abissais, podiam ser aproveitadas para geração de energia, no mar, sem contar a energia das ondas.

No âmbito dos pequenos agricultores muito pode ser feito pelo aproveitamento dos “cataventos”, dos biodigestores e da biomassa, aí incluídas a questão do aproveitamento dos aterros sanitários dos centros urbanos. Parece-me que falta decisão política.

 

 

Cataventos e irrigação alternativa para agricultura sustentável

 

LP- O que de fato o Brasil, e países engajados em acordos internacionais para garantir a água como fonte da vida, estão a propor fazer, atualmente, para encarar os desafios em pauta no mundo?

 

NF -A presença ou ausência de água em um território, a sua abundância ou escassez, são razões que ao longo dos séculos tem determinado a história dos assentamentos humanos, sua permanência ou nomadismo. Na relação, dinâmica e instável, entre água e o território circundante deve-se procurar as razões para a escolha daquele lugar pelo gênero humano para se fixar. Um lugar de vida, mas também da morte.

 

 

Leitos secos, terra sem verde, sem vida, desmatada.

A história do lugar coincide com a história dos povos que a habitam, de tal modo que a terra adquire a capacidade de representar os próprios indivíduos, o seu progresso e a relação com a natureza. É por isto, que a água foi considerada, ao longo dos séculos, um recurso do qual se deve procurar usar da melhor maneira possível, de acordo com a sua disponibilidade no tempo.

Água e uso em harmonia por comunidades indígenas

Questões cíclicas da água, como excesso ou escassez, qualidade e regularidade (princípio de segurança hídrica), são atualmente problemas conexos a novas problemáticas, como o aumento do crescimento demográfico, o crescimento das atividades civis, particularmente os assentamentos urbanos e os sistemas produtivos, a enorme demanda de energia, a preservação do ambiente (lâminas ecológicas).

Exposição fotojornalística SECA SERTÃO ADENTRO

Isto exige que sejam definidas políticas e estratégias por uma Gestão Sustentável da Água, necessidade a qual, verdadeiramente, não estamos ainda em condições de dar respostas plenamente satisfatórias, nem sob a escala local e muito menos em escala planetária. O modelo cultural e produtivo dominante foi até agora centrado simplesmente na identificação do “desenvolvimento” (modelo de progresso baseado na exaustão dos recursos naturais), com o crescimento dimensional quantitativo, no qual se enfatiza a escassez e as necessidades, sempre de forma superestimadas, como forma de obter mais recursos hídricos.

Agronegócio insustentável, criminoso, venenoso!

 

Não existe uma busca por geração de produtos menos consumidores de água, mais por mais água, não importando a que distância ela esteja, fazendo com que sejamos eternos caçadores de água.

O agronegócio desperdiça cerca de 60% de água

A partir dos anos setenta, do século XX, na comunidade internacional, tem emergido claramente uma consciência dos limites dos recursos hídricos e uma distinção entre “desenvolvimento” e crescimento. Consciência que vem gerando uma série de ideias de respeito à natureza e aos recursos naturais, de uma necessária e justa solidariedade na gestão e distribuição.

Protestos contra Belo Monte

Este quadro de mudança se reflete na legislação (nem sempre justa) em matéria de tutela, seja da água, seja do território, e o novo papel e a função dos entes e das estruturas de gestão dos recursos hídricos. Sempre mais ampla é a percepção da complexidade dos fenômenos conexos e a consciência da profunda relação existente entre as variáveis que determinam os fenômenos físicos e os aspectos socioeconômicos associados ao ciclo hidrológico.

Degradação ambiental para energia hidroelétrica- Belo Monte

Agora, amplamente mais compreendido, as tentativas atuais são de gerar níveis satisfatórios de planejamento e gestão do recurso água, a partir de sua quantificação, no tempo e no espaço. As premissas levam em consideração o monitoramento dos componentes do balanço hidrológico, entre eles as chuvas, os deflúvios mensuráveis nas seções dos cursos de água, as perdas devido à evaporação, a identificação e a evolução dos aquíferos subterrâneos, os reservatórios superficiais, os pontos de consumo etc., mediante avaliação probabilística do comportamento do ciclo hidrológico.

Desde sempre os homens sabem que o excesso de chuva ou de seca, podem ser causa de catástrofe e, portanto, existe sempre o problema de observar, medir e compreender os eventos de chuva e os seus efeitos sobre o território. A ciência hidrológica, entre eles a engenharia, nasceu com a tarefa de estudar os eventos meteóricos e a circulação da água no ambiente.

Enchentes podem triplicar nos próximos 15 anos.

LP – Não seria mais sensato investir em prevenção/educação, em detrimento de mitigação de efeitos criminosos, como observamos, a exemplo do rompimento de barragens, como em Mariana, Minas Gerais?

NF – Eventos catastróficos como o que aconteceu no rio doce é o efeito colateral do “desenvolvimento”. Os governos, na sua ânsia, de promoção do “crescimento” acabam permitindo ou relaxando nas medidas de segurança, protetivas e mitigatórias. Acabam permitindo construção de barragens ou outras obras de engenharia em locais de perfil geológico incompatível.

Os processos naturais e as atividades humanas, mediante modificações calamitosas da superfície terrestre, exercem pressões insustentáveis sobre o ambiente. Os estudos de impacto ambiental acabam sendo desleixados no tocante às medidas de prevenção e mitigação.

Rompimento da Barragem Vale/Samarco em Mariana: exemplo de descaso. Foto internet

O cuidado dispensado a estes aspectos deve estar inserido no contexto do progresso sustentável de cada território. Deve ser um modelo que se baseie no princípio de integração entre ambiente e progresso, orientado a obter critérios de equidade, precaução, prevenção, partilha das responsabilidades, reciprocidade ambiental e participação. O uso dos recursos naturais deve ser parcimonioso, especialmente, daqueles não renováveis, de modo a não danificar de maneira irreversível o patrimônio natural ou cultural. Responsabilização e participação devem serem compreendidos como métodos de educação.

 

LP – O que existe funcionando, de fato, mundo afora, entre instituições especializadas, para não sujar a água, que temos em abundância, como na América do Sul/Brasil/Amazônia, e pagamos caro, para limpar o que não deveria sujar?

NF -As crises hídricas recorrentes nas diversas regiões está intimamente associado ás secas, mas também, a poluição por conta da descarga de produtos contaminantes derivados das atividades humanas, seja, industriais ou agrícolas.

O que de mais relevante, ao meu modo de ver, que existe engatinhando no mundo, é a questão do reuso de água. Embora seja um assunto cercado de preconceitos, ela é o futuro. Considerando que a água é um recurso finito e que os usos e as poluições são crescentes, não existem muitas alternativas.

Esgotos a céu aberto contaminam pequenas nascentes

A adaptação dos cultivos para consumo de menor quantidade de água tem limitações; logo, voltar-se para o uso de águas residuais, como se fazem nos países mais áridos do mundo. É para onde se caminha. É preciso despir-se de prejulgamentos e continuar avançando. Processos de evaporação e condensação de águas residuais é seguro. Menos precisaremos usar água de reúso, tanto quanto formos capazes de usar racionalmente a água doce disponível no planeta. Um princípio fundamental é: mais importante do que limpar é não sujar.

Caatinga com leito seco de rio cheio de lixo

LP – O desperdício, seja público ou privado, é paradoxal, em meio a tantos desafios para garantir consumos conscientes. O que temos como exemplar, no planeta, para enfrentar isso?

Ações educativas em exposição itinerante -Movimento AMA -Amigos do Meio Ambiente,

O desperdício é uma questão cultural; logo, em termos de desperdício entendo que as experiências internacionais nem sempre são adequadas ou adaptáveis a outras culturas. O desperdício é uma visão, às vezes sim, às vezes não equivocada, de abundância. Em muitas culturas uma forma de controle do acúmulo da riqueza para evitar a desigualdade econômica. Um antagonismo do capitalismo.

 

Informações para as comunidades como instrumento de mudança

 

 

 

Desperdício d’água é criminoso em meio a tanta falta

A dona de casa anda quilômetros para arranjar um poça d’água para lavar roupa

O potlatch é o fenômeno cultural mais relevante. Era uma cerimônia dos índios americanos, na qual se praticava uma troca agressiva e perdulária de bens. Uma destruição ritual de bens acumulados como forma de demonstração de superioridade. A superioridade estava em não possuir valores maiores que os demais membros das tribos. A glória não estava na riqueza mais no desapego. Um plano simbólico de honra.

No plano prático, a concepção de agricultura ecológica é a mais importante, por que insere a reciclagem de nutrientes e na integração e harmonização dos ecossistemas. Dá dinamismo às cadeias tróficas.

Sem agrotóxicos, agricultura orgânica respeita o solo e a saúde de quem come

Falta de acesso á água causa prejuízos e culturas são perdidas depois de muito trabalho duro

 

 

 

 

LP – Que avaliação faz dos eventos: 02 Encontro Intercontinental sobre a Natureza, Diálogos

NF – Os eventos das organizações não governamentais precisam estar desvinculados de governos para que possam discutir os problemas da sociedade civil sem amarras. Desta forma eles se tornam  mais afirmativos, mais propositivos, mais questionadores. A dificuldade está em viabilizar grandes eventos desta natureza sem o concurso destes patrocinadores. Eventos desta natureza precisam se libertar das amarras e do controle das suas agendas de programação.

Painel de evento com logomarcas corporativas de governo, empresas e instituições patrocinadoras, apoiadoras, parceiras.

 

Liliana Peixinho * – Autora da série especial de 12 matérias “SECA SERTÃO ADENTRO ” – Finalista Prêmio Jornalismo – 2013.

Links https://www.flickr.com/photos/cienciaeculturaufba/sets/72157633266226896/

http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/noticias/industria-da-seca-poder-politico-e-pobreza/

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Desafios em pauta – Paradoxos do discurso ” Sustentável”

Meio Ambiente.bahia.ba
Publicado em 08/11/2015 às 07h00. Atualizado em 08/11/2015 às 08h31.

Paradoxos do discurso “sustentável”

Por Liliana Peixinho

A Ciência já comprovou, e a realidade reforça, o tempo todo, que a ação humana sobre o ambiente onde se desenvolve a vida, em suas múltiplas formas, tem efeitos perversos sobre a própria existência. As informações sobre o o clima indicam a necessidade de mudança de comportamento na forma de ser. Basta parar, desacelerar, para sentir os efeitos de fenômenos extremos: furacões, enchentes, secas, tsunamis, terremotos, doenças, migrações, eventos que exigem adaptações, para garantir a sobrevivência.Ter informações sobre a origem desses problemas é condição essencial para agir com prevenção, cuidado, civilidade, respeito aos nossos limites, em tão vasto espaço de constante ebulição.

Como jornalistas, comunicadores especializados, comprometidos com os desafios, em pautas historicamente reprimidas, não podemos perder mais tempo no faz de conta que faz, sem fazer. Como formadores de opinião, colaboradores, empoderadores de vozes, buscamos novos caminhos livres, independentes, mais eficientes no realizar, sair do discurso, ir a campo aberto, para concretizar a fala. Senão, que sentido há em pesquisar, teorizar, inovar, aprofundar o conhecimento, sem que isso se aplique, de fato, nos espaços de atuação onde a vida acontece? Importante dar exemplo, mostrar atitude. O jornalismo, em crise, tende a abrir espaço para a construção de novos caminhos para as mudanças que denunciamos, diariamente.

Oportuno aqui, resgatar o sentido, o conceito, da expressão ” sustentável”, altamente desgastada, banalizada, mal interpretada, criminosamente utilizada por aí para “limpar” sujeiras escondidas. Como tudo que requer cuidado, ser sustentável é trilhar caminhos limpos, construir cadeias de produção, consumo e descarte, harmoniosas, de ponta a ponta, linkadas ao sentido do bem viver coletivo, civilizado. O trabalho de qualquer ação, projeto, “sustentável’, requer planejamento, atitude, aplicação de políticas inclusivas, de verdade. “Equidade, justiça social e equilíbrio ambiental”, princípios da Carta da Terra, exigirão de cada um de nós, a prática de atitudes de mudança no jeito de ser. Com racionalidade, inteligência, espírito colaborativo, proativismo, solidariedade, visão sistêmica, em macrocontextos. Condições que rompem com as zonas de conforto raso para reinventar, recriar, reutilizar, revolucionar…. comportamento sujo, em limpo, no seu mais alto grau de concepção.

Vemos por aí empresas, escolas, ONGs, instituições diversas, que propagam projetos ditos sustentáveis, só na forma de apresentar, vender, seduzir o outro. E o desafio está posto: garantir a vida com qualidade, prazer, alegria. O desejo de querer mudar terá que vir de dentro, da consciência, do coração, de uma alma elevada, desapegada, generosa, solidária, disposta a fazer concessões individuais, em nome do todo. Não adianta mandar, ordenar, impor, fazer de conta, representar, teatralizar. As legislações existem aí a rodo, com todas as garantias, mas sem cumprimento real. A mudança só virá quando cada um (você, eu, ele, nós, todos, cada um, em nossa casa, trabalho, escola, espaço de lazer) introjetar, no coração, alma e cérebro, a importância de se respeitar a vida, em suas múltiplas necessidades.

As grandes corporações sabem que é mais eficiente adotar estratégias de preservação, que ficar desperdiçando tempo em medir os prejuízos na matriz geradora de tudo. Mas pouco tem mudado, de fato, o modo de se produzir. O governo gasta rios de recursos em estudos, pesquisas, diagnósticos e, até, incorpora o discurso “sustentável”. Mas a prática não corresponde ao que é propagado. O que vemos é ineficiência, falta de planejamento, desperdício, em paradoxo criminoso. Temos na mesa um modelo econômico, replicado no automático, para incentivar o consumo raso, a qualquer custo, em nome de commodities, crescimento, projeção de poder político. Em paralelo, observamos desigualdade, ausência de bens de serviços, gente mal alimentada ou com fome, desemprego, doenças, insegurança, analfabetismo funcional.

Quem sabe tenhamos a oportunidade de subverter, por exemplo, a visão antropocêntrica sobre o ambiente onde se desenvolve a vida, para um olhar integral, sistêmico, onde todas as coisas formam um todo, conectados. E daí, finalmente, possamos dar saltos civilizatórios! Quem dera o jornalismo pudesse valorizar o seu papel transformador social e ajudar a construir um Brasil Limpo! Um país onde conhecimento, tecnologia e recursos naturais, potencializem, reconheçam e valorizem povos tradicionais indígenas, quilombolas, pescadores, artesãos, agricultores familiares, com olhar atento sobre o bem viver. Um país onde o dinheiro público não seja repassado a empresas, ONGs, instituições com projetos ditos “sustentáveis”, mas, como vemos, desvinculados de valores de vida em harmonia, e a serviço de um eficiente marketing promovido pelogreenwashing .

Precisamos abrir mão dos umbigos egoístas, ações imediatistas, superficiais, repetitivas, convencionais; para transgredir, subverter, quebrar regras, em nome da dinâmica natural do Universo, com renovação, invenção, criatividade, compromisso, coragem e prazer em realmente fazer a fala. Nesse caos, quem sabe, desperte um novo Humano. Um ente capaz de entender, interiorizar, no coração, alma e cérebro, que a felicidade pode estar na busca do encontro com o outro. Com respeito, limites, valorização das diferenças e prioridade em Ser, mais que em Ter.

liliana campanha permanente desde 199 D zero camisa pretaLiliana Peixinho é jornalista, ativista, especializada em Jornalismo Científico e Tecnológico.  Fundadora do Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente. Autora de “Por um Brasil Limpo”, livro em pílulas virtuais, publicadas nas redes sociais.

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“OXI’, O QUE FOI ISSO!

“OXI”, o que foi isso!

Liliana Peixinho *

Lembrar de nomes como Sócrates, Platão, Aristóteles, é mergulhar profundo nas origens do conceito de Política, Direito, Democracia. O “OXI” grego, com 61% dos votos, é uma resposta direta, de um povo que trata a Pólis como nenhum outro povo do mundo já concebeu como administração pública. É tiro certeiro contra um Sistema sugador de vidas. É recado corajoso e que precisa ecoar ao mundo, contra um capital secador de riquezas naturais que sustentam a vida, em todos os ambientes.

Torço para que o mundo incorpore o “OXI” grego como um não a esse modelo econômico replicado, no automático, como incentivo ao consumo raso, à qualquer custo. Um modelo que, no Brasil, por exemplo, diante da ausência dos bens de serviços prioritários e importante como: Educação e Trabalho, resultam em fome, desemprego, doenças, insegurança, mortes prematuras. Que o “OXI” grego possa subverter a visão antropocêntrica da vida, para um olhar integral, sistêmico, onde todas as coisas formam o todo, interligado com suas origens. E que a mídia, porta-voz de sonhos e pesadelos, volte ao seu papel transformador social e ajude na atual crise civilizatória! Eu torço e trabalho à favor desse sonho!

Em recente entrevista para a Agência de Ciência e Cultura da UFBa http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/entrevistas/liliana-peixinho/
e replicada Brasil afora, como na Envolverde, por exemplo, falo sobre o papel da mídia em olhar transversal sobre os macrocontextos: “Quando se tem a oportunidade de ver tantos lados de uma mesma história, como vemos no jornalismo em campo aberto, aprendemos a fazer filtros. As concepções entre defesa, ataque ou neutralidade, são relativizadas. Fiz escolhas! E o preço é alto em radicalizar na opção de defender a quem tem sido alijado da garantia de direitos. Tem um pensador moderno, economista, filósofo, francês, o Sergio Latouche, que prega o “decrescimento” como salvação do rumo suicida que humanidade se submete. Como Latouche, acredito no fracasso dessa Economia, nos efeitos negativos da guerra do Capitalismo, e na barbárie da violência da globalização. Latouche é radical e acha impossível conciliar crescimento econômico e sustentabilidade. Depois de me desencantar com a candidatura da Marina Silva à presidência do Brasil, onde trabalhei como voluntária nas duas campanhas, 2010 e 2014, aprofundo a prática de valores que acredito como Teko Porã (O bem comum), Ubuntu (Sou porque somos) e Ecossocialismo (como crítica radical ao capitalismo). Pago o que não tenho para atuar. Isso ainda é um problema.”

Quem vai pagar as contas gregas? As novas organizações políticas de esquerda na Europa com certeza devem estar pensado, a longo prazo, em formas de organização onde a vida rompa com esse ciclo perverso de endividamento eterno às fontes financiadoras da especulação. Volto ao Brasil para lembrar de movimentos sociais que trabalham há décadas contra esse sistema sugador de vidas, e que são impedidos de trabalhar quando se negam a reforçar o paradoxo de se alimentar no prato que estar a cuspir.

A sensação pós resposta grega ao capitalismo, na zona do Euro, é de puro desafio histórico. Sabemos que o preço será alto, com vidas em maiores riscos do que garantir o saque de recursos em filas de bancos para compra de remédios e alimentos, como vimos nos últimos tempos. E como coragem nunca faltou na História grega, que o OXI seja inspiração para movimentos políticos como a RAIZ que brota no Brasil enramando esperanças para uma nova esquerda, em valores Teko Porã (O bem comum), Ubuntu (Sou porque somos) e Ecossocialismo (como crítica radical ao capitalismo).

Liliana Peixinho – Jornalista, ativista, fundadora dos Movimentos AMA – Amigos do Meio Ambiente, Reaja – Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente, RAMA – Rede de Articulação, Mobilização Ambiental, Mídia Orgânica, O OUTRO NO EU, Catadora de Sonhos. Especializada em Jornalismo Científico e Tecnológico.

http://www.esquerda.net/artigo/gregos-dizem-oxi-ao-ultimato-de-bruxelas/37652

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Transversalizar a Informação

Por Juliana Guarexick
0/06/20150

‘Precisamos transversalizar a informação”

LILIANA DESPERDICIO ZERO LIXO ZERO ZLZ BLUSA PRETALiliana Peixinho, em entrevista à Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura, fala sobre a importância de preservar o Meio Ambiente e de pensar novas alternativas para acabar com a produção do lixo. A jornalista, que também é ativista da causa ambiental, foi uma das contempladas com o Prêmio Shift – Agentes Transformadores, na categoria jornalismo socioambiental.

Confira!

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Você é uma das poucas referências na Bahia quando o assunto é jornalismo ambiental. Quando surgiu interesse pela área e de que forma você decidiu ingressar nesse desafio? Do início da sua trajetória até hoje, o que mudou para melhor e o que ainda precisa evoluir?

Liliana Peixinho – Imagina, absolutamente!Temos diversos jornalistas que atuam na área. A diferença é que sou uma profissional independente, que trabalha sem crachá corporativo, sem cnpj institucional, ou recursos de origem duvidosa. Esse interesse sempre esteve presente, desde sempre fui ligada à Natureza, sou do interior, de origem humilde e os desafios de vida, são exemplos de casa, herança dos meus pais. Antes da Faculdade de Comunicação, 1984-1988, fazia Matemática, na UCsal, e abandonei o curso, em 1980, para viajar Brasil afora, e conhecer, de perto, povos tradicionais como indígenas, quilombolas, pescadores, artesãos, agricultores familiares, em convivência in loco, com a comunidade. Esse universo contribuiu para um olhar atento sobre a rica diversidade ambiental do nosso pais.

Minha atuação, desde 1984, início no jornalismo, está ligada às histórias de lutas na defesa de direitos. Sempre foi assim: na reportagem em campo minado de perigo e sem retaguardas; como assessora/consultora de projetos políticos, educacionais ou institucionais. Nos últimos 15 anos atuo mais como ativista, pesquisadora, colaboradora/articulista e gestora de diversas mídias Brasil afora, inclusive as que criei e produzo conteúdos em articulação com movimentos socioambientais, Brasil e mundo afora.

O que mudou para melhor? A forma, a velocidade e a qualidade da informação. As Redes Sociais revolucionaram o sonho de jornalistas em poder horizontalizar informações, fazer chegar a todos, sem censura, sem edição, sem patrão, em conteúdos investigativos normalmente sem espaço nas mídias tradicionais, controladas em sistema corporativo, com interesses divergentes que a vida estar a exigir, no ambiente Terra, sedento de cuidados.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Recentemente você foi contemplada com o prêmio Prêmio Shift – Agentes Transformadores, na categoria jornalismo socioambiental. Qual a importância desse reconhecimento para você, para sua profissão e para a conscientização das pessoas quanto à importância que devemos ter com o meio ambiente?

Liliana Peixinho – O Prêmio Shift tem duas importâncias: a pessoal, quando reconhece uma história de vida ; e a profissional, porque ajuda a empoderar formas e caminhos livres, independentes, para o realizar, sair do discurso, ir a campo aberto, minado de perigo, e fazer a fala. Não vejo sentido em estudar, teorizar, tentar inovar, na Academia, sem que isso se aplique, de fatos, nos espaços de atuação onde a vida acontece, no dia a dia. Importante dar exemplo, mostrar atitude. É o caminho para realizar as mudanças, que nós, jornalistas, tanto denunciamos. Quando falo, por exemplo, em Desperdício Zero = Lixo Zero, penso ser importante, ao mesmo tempo, que escrevo artigos como “Paradoxo entre Discurso Sustentável e Realidade Caótica em Foco Investigativo”, ou artigos científicos, citando grandes teóricos, pensadores, filósofos, escritores, etc. para justificar porque precisamos, por exemplo, de um Nova Economia Circular e mostrar como é esse fazer: visitas a residências com oficinas sobre separação de resíduos em Cultura dos Rs; mobilização de síndicos de condomínios; valorização do catador como agente ambiental; compartilhamento de ações de desapego material.

Trabalho de formiguinha mesmo, para multiplicar, sensibilizar e fazer a mudança acontecer. Levo essa discussão: entre o que estamos a propagar – o discurso – e o que está, ou não, sendo feito, de fato – a realidade, para diversos ambientes acadêmicos, científicos, de representação coletiva, em grupos com a Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA), Rede Brasileira de Educação Ambiental (REBEA), Rede Brasileira de Informação Ambiental (REBIA), Grupos de Jornalistas, Ambientalistas, Empresários, Governo, entre muitos outros, onde socializo, compartilho o desenrolar das pesquisas, sobre o descompasso entre o discurso e a realidade.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Pode contar como foi a experiência de produção do vídeo “Snapping the streets”. Qual foi o objetivo desse produto? O que você pretendia passar e para quem?

Liliana Peixinho – Esse filme/vídeo foi feito por uma equipe de jornalistas da Inglaterra – Londres que se interessaram ao me observar em campo trabalhando numa matéria sobre Turismo Sustentável, na Chapada dos Veadores – Goiás. Eles se aproximaram, observaram como eu trabalhava com a comunidade, botando a mão em enxadas para fazer trilhas; adubar a terra para ajudar em hortas, jardins e quintais, fazer oficinas sobre aproveitamento integral de alimentos, fazer rodas de leituras e desenhos sobre as riquezas locais, com crianças, boca de forno educativo. Além, claro de entrevistar, fotografar, escrever e publicar as reportagens. Essa matéria, por exemplo, não teve pauta pré-produzida, uma empresa, uma redação de jornal, por trás, bancando a minha ida a campo. Eu mesma fazia o roteiro e, in loco, buscava subsídios que fortalecessem a minha pesquisa do MBA em Turismo e Hotelaria, finalizado em 2005.

Quando voltei à Salvador, falei da experiência com colegas jornalista e o Jornal A Tarde publicou matéria especial, manchete do Caderno de Turismo, com três páginas. Não recebi um centavo! Tempos depois dessa viagem recebi um email da Inglaterra, informando que a Together TV gostaria de fazer um filme sobre a forma como desenvolvo o meu trabalho. Respondi que sim, desde que fosse tudo natural e eles poderiam me acompanhar nas atividades diárias, sem roteiros prévios, registrando o cotidiano do trabalho, e extraírem o que fosse importante para difundir como exemplo multiplicador.

Qual a mensagem? Está lá no vídeo: não desistir do compromisso em fazer o que se pretende, acredita ser necessário, importante, e urgente, para defender a vida, mesmo que não se tenha recursos para isso.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Você diz, no vídeo “Snapping the streets”, que não há grandes investimentos na preservação do meio ambiente, por parte das grandes corporações midiáticas. Dessa forma, como se dá a importância do papel da mídia alternativa, que costuma ser mais ativa – e ativista – em questões socioambientais?

Liliana Peixinho – No mundo inteiro existe, é bem acessada, e funciona com eficiência e transparência, uma plataforma chamada crowdfunding, para financiamento público de projetos. De qualquer valor, ou tempo de execução. Qualquer projeto: seja um livro, um portal, um evento, a construção de sede de instituição, uma viagem de trabalho/pesquisa a outro pais. Então, quem tiver acesso e gostar, vai lá, no link, entra, ler tudo e apoia. No Brasil, essa plataforma começou a ser conhecida tem pouco tempo e a sociedade ainda se mostra, digamos, acomodada em entrar, ver o passo a passo, ler, entender a proposta, o trabalho, com tudo explicado: cronograma, investimentos, contrapartidas a quem apóia e depois escolher a forma e o valor do apoio. Esse seria um caminho limpo, rápido, horizontal, moderno e transparente para se trabalhar. Estou confiante, porque não em sido fácil pagar para trabalhar.

Sobre o papel da Mídia Alternativa, nos anos 80/90 quando comecei a acompanhar algumas publicações, mais de perto, considero que foi muito importante porque foi quem, de fato, pautou e foi a campo investigativo para denunciar, propagar o que a mídia tradicional sempre resistiu, por não ter interesse em confrontar o capital, que lhes mantém. No entanto, nos últimos cinco, 10 anos, por ai, muitos jornais, “ditos”: alternativos, surgidos nos anos 80/90, diluíram seus conteúdos entre a denúncia e a propaganda, abrindo espaço até a quem, estaria a investigar, suspeitar, sob a justificativa de ”sobrevivência” do veículo. Um paradoxo que sempre permeou a atuação da imprensa, com interdependências entre “Comercial” e “Jornalismo”.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Qual a sua avaliação da atuação da grande mídia na cobertura do tema sustentabilidade? E qual sua análise para o cenário do jornalismo ambiental, principalmente no Estado da Bahia?

Liliana Peixinho – Sensacionalista! Pautada em desastres, sem contextualizá-los às suas origens. Perguntas como: por que aconteceu, o que poderia ter sido feito para prevenir, que resultados, a longo e médio prazos, tal evento pode gerar na vida de futuras gerações? As respostas, quando surgem, são para justificar o imediato! Ou para fazer de conta que investiga para punir, quando pune, gerar receitas, que não são aplicadas, devidamente, para a prevenção de novos desastres. E vemos uma sucessão deles, Bahia, Nordeste, Brasil e mundo afora.

Na Bahia, em Salvador, por exemplo, temos exemplo de crimes ambientais encobertos pelo capital imobiliário especulativo. A degradação/contaminação de quase todos os mananciais hídricos tem sido relacionada a diversos problemas de saúde, que lotam hospitais, centro médicos, consultórios particulares. O que tem sido feito? O descaso com o patrimônio cultural, arquitetônico, ambiental tem causado mortes, abandono, descaso com famílias. Fato histórico e que se repete, a cada novas chuvas. A coleta de “lixo” é ineficiente, não tem valor educativo, e deixa rastros sujos. Enquanto isso, o dinheiro público reforça empresas, Ongs, instituições, em projetos ditos sustentáveis, só no nome, pois vemos que na realidade a expressão se desvinculou do conceito original, através do agressivo e eficiente marketing promovido pelo greenwashing, pintado de verde.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Podemos dizer que temas como sustentabilidade, meio ambiente, saúde e ciência ganharam mais espaço e passaram a ter grande repercussão na mídia? Se sim, a que podemos atribuir essa mudança? Quais as principais transformações ocorridas nestas abordagens?

Liliana Peixinho – Se quiséssemos ser rigorosos, pragmáticos, todo esses temas ai elencados poderiam, ou deveria ser, um só. Eles estão sim, por ai, nas pautas, com frequência e até citados, diariamente. No entanto, o Jornalismo ainda se ressente das dificuldades e limitações em transversalizar a informação, através da macrocontextualização de problemas, historicamente reprimidos. Defendo, em minha proposta de tese/mestrado, a construção de cadeias de informações harmoniosas de ponta a ponta. Isso exige coragem investigativa do repórter, disposição de trabalho em equipe, e compromisso dos veículos. Sem contar a interação do leitor/internauta com a notícia, os fatos.

O que vejo de novo, e muito importante, é abertura de grandes veículos com espaço para o, antes invisível, sem voz: o telespectador, o leitor, o internauta. Essa interatividade é revolucionária no olhar do ambiente, como espaço, lugar, onde a vida acontece, todos os dias.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – A falta de espaço para se fazer jornalismo científico na Bahia é notório, sobretudo quando percebemos que apenas o jornal A Tarde tem uma editoria para divulgação da ciência. Como você avalia essa questão e qual as consequências disso, para a sociedade?

Liliana Peixinho – Não considero relevante o fato de um jornal tradicional local, em crise, como diversos outros Brasil afora, abrir espaço para a divulgação científica. Que bom que existe o espaço. Acho mais importante, atualmente, a elevação do nível em produção de conteúdos para ocupação das Redes Sociais como Facebook, onde 70 por cento dos brasileiros usa para se “informar”, entre tantas, super eficientes, bacanas e lúdicas, que surgem, a cada dia, no campo virtual. Se tivéssemos o uso de apps em nome da divulgação científica, nos aparelhos celulares, a população, que usa esses aplicativos em forma de “entretenimento”, poderia se apoderar, como voz e atores sociais, na mudança que a maior parte dos humanos estar a necessitar, para viver, com dignidade.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Como a mídia pode colaborar com as questões ambientais e as políticas de sustentabilidade?

Liliana Peixinho – A Ciência já comprovou que a ação do homem sobre o ambiente onde se desenvolve a vida, em suas diversas formas, tem prejudicado a própria humanidade. As mudanças climáticas é fato ainda não absorvido com a seriedade necessária. As grandes corporações já perceberam que é mais eficiente adotar estratégias de preservação da matriz geradora de tudo. O Governo também incorpora o discurso. Mas, entre o quê se propaga e o que realmente se faz, com eficiência, e responsabilidade com a vida, o paradoxo é criminoso. Observamos muito desperdício, uso ineficiente de recursos, projetos, ações de faz de conta que faz, em marketing com estética sedutora, apelativa, que realmente um fazer em compromisso e para que as mudanças aconteçam.

Quando a mídia incorporar a ideia de que esse modelo econômico replicado, no automático, para incentivar o consumo raso, à qualquer custo, é parte da origem das desigualdades, que, pela ausência dos bens de serviços, resultam em fome, desemprego, doenças, insegurança, analfabetismo funcional; assim como subverter essa visão antropocêntrica sobre o ambientalismo, para um olhar integral, sistêmico, onde todas as coisas formam o todo, ai, quem sabe o jornalismo volte ao seu papel de transformador social e ajude na atual crise civilizatória! Eu torço e trabalho á favor desse sonho!

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Quais os desafios do jornalista que busca empenhar um papel de porta-voz das demandas ambientais?

Liliana Peixinho – Ter coragem para ir a campo aberto, munido do máximo de informações; contextualizar aparentes pequenos problemas numa teia de informações que desvende os caminhos sujos; valorizar a investigação até a ponta, dando o máximo de visibilidade; e, sobretudo, gostar e ter ciência e honrar o seu papel social.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Como os jornalistas precisam se preparar para realizar uma cobertura dessas temáticas de forma clara e que possam contribuir mais melhoria da qualidade de vida dos baianos e dos brasileiros? Tem a ver com formação ou apenas com ser ativista?

Liliana Peixinho – Acho que qualquer profissão exige paixão, compromisso e responsabilidade com o seu fazer. O preparo é condição essencial para realizar um bom trabalho. Os caminhos para isso, cada um escolhe, dentro de suas próprias histórias e valores de vida. O meu ser ativista veio como consequência de uma longa jornada, inquieta, ao observar, registrar e sentir as injustiças. Quando se tem a oportunidade de ver tantos lados de uma mesma história, como vemos no jornalismo em campo aberto, aprendemos a fazer filtros. As concepções entre defesa, ataque ou neutralidade, são relativizadas. Fiz escolhas! E o preço é alto em radicalizar na opção de defender a quem tem sido alijado da garantia de direitos. Tem um pensador moderno, economista, filósofo, francês, o Sergio Latouche, que prega o “descrescimento” como salvação do rumo suicida que humanidade se submete. Como Latouche, acredito no fracasso dessa Economia, nos efeitos negativos da guerra do Capitalismo, e na barbárie da violência da globalização. Latouche é radical e acha impossível conciliar crescimento econômico e sustentabilidade. Depois de me desencantar com a candidatura da Marina Silva à presidência do Brasil, onde trabalhei como voluntária nas duas campanhas, 2010 e 2014, aprofundo a prática de valores que acredito como Teko Porã (O bem comum), Ubuntu (Sou porque somos) e Ecossocialismo (como crítica radical ao capitalismo). Pago o que não tenho para atuar. Isso ainda é um problema.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Em uma sociedade que tem como uma de suas bases o consumismo, de que forma é possível pensar em “desperdício zero”? Como e por onde devemos começar?

Liliana Peixinho – Pela vontade de mudar o modelo econômico que alimenta um sistema devorador de vidas. Começa na cabeça de cada um, com a razão em ser civilizado; abre espaço no coração, com o outro no eu, e se concretiza em consciência, cuidado e boa informação, para adquirir somente o que realmente é necessário para o bem viver. No sentindo profundo de “Lixo Zero” não existem lixeiras nas ruas. Não há essa necessidade delas – ainda mais quando se usa de forma errada – quando se pratica valores ecossocialistas. Ao absorvemos a Cultura dos 7 Rs (Racionalizar, Reduzir, Repartir, Reutilizar, Repensar, Recriar, Revolucionar….), proposta pelo Movimento AMA, em olhar de macrocontextos planetário, vamos praticar cada R, no momentos certo. A ideia é praticarmos o menos: (ego, consumo, estresse, doença, coisas inúteis) para termos mais (humanidade, felicidade, solidariedade..)

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Na Bahia existem iniciativas ou projetos que incentivem o “desperdício zero”? .

Liliana Peixinho – O Movimento Amigos do Meio Ambiente (AMA), uma das cinco mídias independentes que criei e alimento diariamente, tem elos com catadores, artesãos, artistas, donas de casa, escolas e outros coletivos comunitários, identificados localmente. Na ação: Agenda Ambiental Doméstica, por exemplo, temos o case “Casa Lixo Zero”, do Projeto/livro “Por um Brasil Limpo”. A prática do Lixo Zero é alimentada pelo Desperdício Zero, e tem suas bases na Redução do Consumo em cadeia, para Revolucionar comportamentos, fazer surgir uma nova Economia que priorize a vida, com saúde e harmonia coletiva.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – O que tem sido feito para que iniciativas como essas cheguem à comunidade, de forma que ela conheça e comece a realizá-las conscientemente?

Liliana Peixinho – O Movimento Amigos do Meio Ambiente tem mais de 15 anos de atuação na campanha Desperdício Zero = Lixo Zero = Saneamento 10. Temos uma história de ações em condomínios, escolas, eventos, universidades, de porta a porta, pessoa a pessoa, empresa a empresa, escola a escola, como formiguinhas, onde mostramos, através de rodas de diálogos, exposições fotojornalísticas, oficinas, encontros e difusão de informações Brasil e mundo afora. Como funciona o ciclo Lixo Zero? A partir de cada um, em casa. Qualquer resíduo a descartar, seja um pote vazio de queijo, um saco de açúcar, um jornal, um sapato velho, uma calça manchada, um blusa descosturada, um lençol rasgado, um vidro quebrado, tudo entra no ciclo vivo da Cultura dos Rs. Até mesmo, o mais complicado dos resíduos: o orgânico (cascas e restinhos de alimentos) vira adubo e entra numa outra ação do AMA: “Quintais Verdes”, que promove a produção de hortas, jardins e pomares.

Cada tipo de produto/resíduo faz a trilha inversa ao lixo, passa longe do conceito sujo “lixo”, gerando um ciclo vivo entre quem quer descartar; quem quer, precisa, e gosta de Reutilizar, Recriar com arte. Temos uma agenda com donas de casas, restaurantes, bares, lanchonetes, para não desperdiçar nada. Se antes, por exemplo, era feio levar comida de uma casa para outra, resgatamos costumes dos nossos avôs e nas festas, as pessoas levam suas vasilhas para, em caso de sobras, dividir com quem não teve oportunidade de participar do evento.

Nossa meta é chegar um dia, ao que a Bélgica faz, por exemplo. Existem geladeiras públicas que guardam “sobras de comida” de alguém que, por exemplo, foi almoçar e a quantidade de alimento servido na mesa é superior ao desejo e necessidade do cliente. A pessoa recebe uma vasilha e guarda tudo limpinho, não como resto do prato, mas como sobra do que é servido, e alguém, na rua, com fome, sem tempo ou condição de comprar um prato de comida, vai na geladeira pública, pega o alimento e come. Em Berlim fotografei coletores públicos de sapatos, vidros por cor (branco, azul, preto), roupas, plástico seco, plástico úmido, alumínio, papel, onde tudo, exatamente tudo, pertence a um ciclo vivo. “Lixão”, na civilidade, é palavrão. O Japão por exemplo, apresenta índices de 100 por cento de saneamento. Por que? Não se joga, nem um sequer palito de fósforo, no chão.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Em sua opinião, a academia tem contribuído para que o meio ambiente seja respeitado? De que forma? As pesquisas têm sido fundamentais para melhor a qualidade de vida das pessoas e de preservação do planeta e de suas riquezas?

Liliana Peixinho – A contribuição da academia poderia ser mais eficiente se conseguisse romper elos com macro políticas corporativas e se aproximasse mais, via extensão, de projetos comunitários. É papel da Ciência difundir o conhecimento para a aplicação no cotidiano. Se a realidade revela ambientes sujos, degradados, dilapidados, com a vida em risco, sem ações preventivas em massa, precisamos admitir que a ocupação desse espaço continua com vácuos extensos, entre o que as pesquisas revelam, e o que está em xeque, como demandas reprimidas. Existe um passivo ambiental de mais de 40%, relacionado ao que Latouche chama de ”sobre-crescimento econômico”, devorador da biosfera. A Ciência nos mostra que a capacidade regeneradora da Terra não atende a demandas velozes, onde o homem transforma os recursos em rejeitos, mais rapidamente do que a natureza consegue transformar esses rejeitos em novos recursos. Assim, a Cultura dos Rs que expomos anteriormente, tem seus limites dentro dos ciclo vivos. Precisamos mesmo é parar de consumir o que não nos faz falta.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Como jornalista premiada, qual recado gostaria de deixar para a sociedade baiana, para os jornalistas divulgadores científicos e para a mídia baiana?

Liliana Peixinho – Prêmio é reconhecimento de entrega, trabalho, dedicação, compromisso, em equipe. O Shift – Agentes Transformadores – tem uma Comissão composta por jornalistas, educadores e empreendedores de compromisso com as novas pautas mundiais. Cada voto recebido, Brasil afora, reforça o compromisso com os desafios em promover as mudanças que a vida estar a exigir, e faz tempo. Quero agradecer a cada um que me escolheu como exemplo e dizer da importância e necessidade de se ter mais aliados nesse cenário, triste, desafiador, diante de tanto descaso com a vida. Ao reconhecer uma história de vida dedicada aos desafios, como “Jornalista Desbravadora Socioambiental”, como foi intitulado pelo Prêmio Shift, mais que orgulho, tenho também certa tristeza, porque poderíamos estar trabalhando com as retaguardas necessárias e justas para ir a campo minado de perigo, com alguma proteção. Mas, a história reconhecida pelo Shift destaca exatamente uma exposição profissional desumana, riscos constantes e uma entrega total: corpo, alma, coração e cérebro, para atuar em liberdade investigativa, com o “Outro no eu”, numa escolha que prevalece o que foi apurado em campo, com as vozes, normalmente, invisível, protagonizando fatos. O Brasil é topo na lista de perseguição e assassinatos de jornalistas e ambientalistas que atuam na contramão dos interesses das grandes corporações. Precisaríamos entender que esse trabalho é para defender, preservar, cuidar, da vida. E isso extrapola e muito, o umbigo humano. (Agência de Notícias Ciência e Cultura/ #Envolverde)

* Publicado originalmente pela Agência de Notícias Ciência e Cultura.

Confira abaixo o vídeo premiado

Snapping the streets

Postado em: 1 – Opinião, Entrevistas 2015

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Transversalizar a Informação

Por Juliana Guarexick 3
0/06/20150 Comentários

‘Precisamos transversalizar a informação”

LILIANA DESPERDICIO ZERO LIXO ZERO ZLZ BLUSA PRETALiliana Peixinho, em entrevista à Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura, fala sobre a importância de preservar o Meio Ambiente e de pensar novas alternativas para acabar com a produção do lixo. A jornalista, que também é ativista da causa ambiental, foi uma das contempladas com o Prêmio Shift – Agentes Transformadores, na categoria jornalismo socioambiental.

Confira!

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Você é uma das poucas referências na Bahia quando o assunto é jornalismo ambiental. Quando surgiu interesse pela área e de que forma você decidiu ingressar nesse desafio? Do início da sua trajetória até hoje, o que mudou para melhor e o que ainda precisa evoluir?

Liliana Peixinho – Imagina, absolutamente!Temos diversos jornalistas que atuam na área. A diferença é que sou uma profissional independente, que trabalha sem crachá corporativo, sem cnpj institucional, ou recursos de origem duvidosa. Esse interesse sempre esteve presente, desde sempre fui ligada à Natureza, sou do interior, de origem humilde e os desafios de vida, são exemplos de casa, herança dos meus pais. Antes da Faculdade de Comunicação, 1984-1988, fazia Matemática, na UCsal, e abandonei o curso, em 1980, para viajar Brasil afora, e conhecer, de perto, povos tradicionais como indígenas, quilombolas, pescadores, artesãos, agricultores familiares, em convivência in loco, com a comunidade. Esse universo contribuiu para um olhar atento sobre a rica diversidade ambiental do nosso pais.

Minha atuação, desde 1984, início no jornalismo, está ligada às histórias de lutas na defesa de direitos. Sempre foi assim: na reportagem em campo minado de perigo e sem retaguardas; como assessora/consultora de projetos políticos, educacionais ou institucionais. Nos últimos 15 anos atuo mais como ativista, pesquisadora, colaboradora/articulista e gestora de diversas mídias Brasil afora, inclusive as que criei e produzo conteúdos em articulação com movimentos socioambientais, Brasil e mundo afora.

O que mudou para melhor? A forma, a velocidade e a qualidade da informação. As Redes Sociais revolucionaram o sonho de jornalistas em poder horizontalizar informações, fazer chegar a todos, sem censura, sem edição, sem patrão, em conteúdos investigativos normalmente sem espaço nas mídias tradicionais, controladas em sistema corporativo, com interesses divergentes que a vida estar a exigir, no ambiente Terra, sedento de cuidados.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Recentemente você foi contemplada com o prêmio Prêmio Shift – Agentes Transformadores, na categoria jornalismo socioambiental. Qual a importância desse reconhecimento para você, para sua profissão e para a conscientização das pessoas quanto à importância que devemos ter com o meio ambiente?

Liliana Peixinho – O Prêmio Shift tem duas importâncias: a pessoal, quando reconhece uma história de vida ; e a profissional, porque ajuda a empoderar formas e caminhos livres, independentes, para o realizar, sair do discurso, ir a campo aberto, minado de perigo, e fazer a fala. Não vejo sentido em estudar, teorizar, tentar inovar, na Academia, sem que isso se aplique, de fatos, nos espaços de atuação onde a vida acontece, no dia a dia. Importante dar exemplo, mostrar atitude. É o caminho para realizar as mudanças, que nós, jornalistas, tanto denunciamos. Quando falo, por exemplo, em Desperdício Zero = Lixo Zero, penso ser importante, ao mesmo tempo, que escrevo artigos como “Paradoxo entre Discurso Sustentável e Realidade Caótica em Foco Investigativo”, ou artigos científicos, citando grandes teóricos, pensadores, filósofos, escritores, etc. para justificar porque precisamos, por exemplo, de um Nova Economia Circular e mostrar como é esse fazer: visitas a residências com oficinas sobre separação de resíduos em Cultura dos Rs; mobilização de síndicos de condomínios; valorização do catador como agente ambiental; compartilhamento de ações de desapego material.

Trabalho de formiguinha mesmo, para multiplicar, sensibilizar e fazer a mudança acontecer. Levo essa discussão: entre o que estamos a propagar – o discurso – e o que está, ou não, sendo feito, de fato – a realidade, para diversos ambientes acadêmicos, científicos, de representação coletiva, em grupos com a Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA), Rede Brasileira de Educação Ambiental (REBEA), Rede Brasileira de Informação Ambiental (REBIA), Grupos de Jornalistas, Ambientalistas, Empresários, Governo, entre muitos outros, onde socializo, compartilho o desenrolar das pesquisas, sobre o descompasso entre o discurso e a realidade.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Pode contar como foi a experiência de produção do vídeo “Snapping the streets”. Qual foi o objetivo desse produto? O que você pretendia passar e para quem?

Liliana Peixinho – Esse filme/vídeo foi feito por uma equipe de jornalistas da Inglaterra – Londres que se interessaram ao me observar em campo trabalhando numa matéria sobre Turismo Sustentável, na Chapada dos Veadores – Goiás. Eles se aproximaram, observaram como eu trabalhava com a comunidade, botando a mão em enxadas para fazer trilhas; adubar a terra para ajudar em hortas, jardins e quintais, fazer oficinas sobre aproveitamento integral de alimentos, fazer rodas de leituras e desenhos sobre as riquezas locais, com crianças, boca de forno educativo. Além, claro de entrevistar, fotografar, escrever e publicar as reportagens. Essa matéria, por exemplo, não teve pauta pré-produzida, uma empresa, uma redação de jornal, por trás, bancando a minha ida a campo. Eu mesma fazia o roteiro e, in loco, buscava subsídios que fortalecessem a minha pesquisa do MBA em Turismo e Hotelaria, finalizado em 2005.

Quando voltei à Salvador, falei da experiência com colegas jornalista e o Jornal A Tarde publicou matéria especial, manchete do Caderno de Turismo, com três páginas. Não recebi um centavo! Tempos depois dessa viagem recebi um email da Inglaterra, informando que a Together TV gostaria de fazer um filme sobre a forma como desenvolvo o meu trabalho. Respondi que sim, desde que fosse tudo natural e eles poderiam me acompanhar nas atividades diárias, sem roteiros prévios, registrando o cotidiano do trabalho, e extraírem o que fosse importante para difundir como exemplo multiplicador.

Qual a mensagem? Está lá no vídeo: não desistir do compromisso em fazer o que se pretende, acredita ser necessário, importante, e urgente, para defender a vida, mesmo que não se tenha recursos para isso.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Você diz, no vídeo “Snapping the streets”, que não há grandes investimentos na preservação do meio ambiente, por parte das grandes corporações midiáticas. Dessa forma, como se dá a importância do papel da mídia alternativa, que costuma ser mais ativa – e ativista – em questões socioambientais?

Liliana Peixinho – No mundo inteiro existe, é bem acessada, e funciona com eficiência e transparência, uma plataforma chamada crowdfunding, para financiamento público de projetos. De qualquer valor, ou tempo de execução. Qualquer projeto: seja um livro, um portal, um evento, a construção de sede de instituição, uma viagem de trabalho/pesquisa a outro pais. Então, quem tiver acesso e gostar, vai lá, no link, entra, ler tudo e apoia. No Brasil, essa plataforma começou a ser conhecida tem pouco tempo e a sociedade ainda se mostra, digamos, acomodada em entrar, ver o passo a passo, ler, entender a proposta, o trabalho, com tudo explicado: cronograma, investimentos, contrapartidas a quem apóia e depois escolher a forma e o valor do apoio. Esse seria um caminho limpo, rápido, horizontal, moderno e transparente para se trabalhar. Estou confiante, porque não em sido fácil pagar para trabalhar.

Sobre o papel da Mídia Alternativa, nos anos 80/90 quando comecei a acompanhar algumas publicações, mais de perto, considero que foi muito importante porque foi quem, de fato, pautou e foi a campo investigativo para denunciar, propagar o que a mídia tradicional sempre resistiu, por não ter interesse em confrontar o capital, que lhes mantém. No entanto, nos últimos cinco, 10 anos, por ai, muitos jornais, “ditos”: alternativos, surgidos nos anos 80/90, diluíram seus conteúdos entre a denúncia e a propaganda, abrindo espaço até a quem, estaria a investigar, suspeitar, sob a justificativa de ”sobrevivência” do veículo. Um paradoxo que sempre permeou a atuação da imprensa, com interdependências entre “Comercial” e “Jornalismo”.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Qual a sua avaliação da atuação da grande mídia na cobertura do tema sustentabilidade? E qual sua análise para o cenário do jornalismo ambiental, principalmente no Estado da Bahia?

Liliana Peixinho – Sensacionalista! Pautada em desastres, sem contextualizá-los às suas origens. Perguntas como: por que aconteceu, o que poderia ter sido feito para prevenir, que resultados, a longo e médio prazos, tal evento pode gerar na vida de futuras gerações? As respostas, quando surgem, são para justificar o imediato! Ou para fazer de conta que investiga para punir, quando pune, gerar receitas, que não são aplicadas, devidamente, para a prevenção de novos desastres. E vemos uma sucessão deles, Bahia, Nordeste, Brasil e mundo afora.

Na Bahia, em Salvador, por exemplo, temos exemplo de crimes ambientais encobertos pelo capital imobiliário especulativo. A degradação/contaminação de quase todos os mananciais hídricos tem sido relacionada a diversos problemas de saúde, que lotam hospitais, centro médicos, consultórios particulares. O que tem sido feito? O descaso com o patrimônio cultural, arquitetônico, ambiental tem causado mortes, abandono, descaso com famílias. Fato histórico e que se repete, a cada novas chuvas. A coleta de “lixo” é ineficiente, não tem valor educativo, e deixa rastros sujos. Enquanto isso, o dinheiro público reforça empresas, Ongs, instituições, em projetos ditos sustentáveis, só no nome, pois vemos que na realidade a expressão se desvinculou do conceito original, através do agressivo e eficiente marketing promovido pelo greenwashing, pintado de verde.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Podemos dizer que temas como sustentabilidade, meio ambiente, saúde e ciência ganharam mais espaço e passaram a ter grande repercussão na mídia? Se sim, a que podemos atribuir essa mudança? Quais as principais transformações ocorridas nestas abordagens?

Liliana Peixinho – Se quiséssemos ser rigorosos, pragmáticos, todo esses temas ai elencados poderiam, ou deveria ser, um só. Eles estão sim, por ai, nas pautas, com frequência e até citados, diariamente. No entanto, o Jornalismo ainda se ressente das dificuldades e limitações em transversalizar a informação, através da macrocontextualização de problemas, historicamente reprimidos. Defendo, em minha proposta de tese/mestrado, a construção de cadeias de informações harmoniosas de ponta a ponta. Isso exige coragem investigativa do repórter, disposição de trabalho em equipe, e compromisso dos veículos. Sem contar a interação do leitor/internauta com a notícia, os fatos.

O que vejo de novo, e muito importante, é abertura de grandes veículos com espaço para o, antes invisível, sem voz: o telespectador, o leitor, o internauta. Essa interatividade é revolucionária no olhar do ambiente, como espaço, lugar, onde a vida acontece, todos os dias.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – A falta de espaço para se fazer jornalismo científico na Bahia é notório, sobretudo quando percebemos que apenas o jornal A Tarde tem uma editoria para divulgação da ciência. Como você avalia essa questão e qual as consequências disso, para a sociedade?

Liliana Peixinho – Não considero relevante o fato de um jornal tradicional local, em crise, como diversos outros Brasil afora, abrir espaço para a divulgação científica. Que bom que existe o espaço. Acho mais importante, atualmente, a elevação do nível em produção de conteúdos para ocupação das Redes Sociais como Facebook, onde 70 por cento dos brasileiros usa para se “informar”, entre tantas, super eficientes, bacanas e lúdicas, que surgem, a cada dia, no campo virtual. Se tivéssemos o uso de apps em nome da divulgação científica, nos aparelhos celulares, a população, que usa esses aplicativos em forma de “entretenimento”, poderia se apoderar, como voz e atores sociais, na mudança que a maior parte dos humanos estar a necessitar, para viver, com dignidade.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Como a mídia pode colaborar com as questões ambientais e as políticas de sustentabilidade?

Liliana Peixinho – A Ciência já comprovou que a ação do homem sobre o ambiente onde se desenvolve a vida, em suas diversas formas, tem prejudicado a própria humanidade. As mudanças climáticas é fato ainda não absorvido com a seriedade necessária. As grandes corporações já perceberam que é mais eficiente adotar estratégias de preservação da matriz geradora de tudo. O Governo também incorpora o discurso. Mas, entre o quê se propaga e o que realmente se faz, com eficiência, e responsabilidade com a vida, o paradoxo é criminoso. Observamos muito desperdício, uso ineficiente de recursos, projetos, ações de faz de conta que faz, em marketing com estética sedutora, apelativa, que realmente um fazer em compromisso e para que as mudanças aconteçam.

Quando a mídia incorporar a ideia de que esse modelo econômico replicado, no automático, para incentivar o consumo raso, à qualquer custo, é parte da origem das desigualdades, que, pela ausência dos bens de serviços, resultam em fome, desemprego, doenças, insegurança, analfabetismo funcional; assim como subverter essa visão antropocêntrica sobre o ambientalismo, para um olhar integral, sistêmico, onde todas as coisas formam o todo, ai, quem sabe o jornalismo volte ao seu papel de transformador social e ajude na atual crise civilizatória! Eu torço e trabalho á favor desse sonho!

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Quais os desafios do jornalista que busca empenhar um papel de porta-voz das demandas ambientais?

Liliana Peixinho – Ter coragem para ir a campo aberto, munido do máximo de informações; contextualizar aparentes pequenos problemas numa teia de informações que desvende os caminhos sujos; valorizar a investigação até a ponta, dando o máximo de visibilidade; e, sobretudo, gostar e ter ciência e honrar o seu papel social.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Como os jornalistas precisam se preparar para realizar uma cobertura dessas temáticas de forma clara e que possam contribuir mais melhoria da qualidade de vida dos baianos e dos brasileiros? Tem a ver com formação ou apenas com ser ativista?

Liliana Peixinho – Acho que qualquer profissão exige paixão, compromisso e responsabilidade com o seu fazer. O preparo é condição essencial para realizar um bom trabalho. Os caminhos para isso, cada um escolhe, dentro de suas próprias histórias e valores de vida. O meu ser ativista veio como consequência de uma longa jornada, inquieta, ao observar, registrar e sentir as injustiças. Quando se tem a oportunidade de ver tantos lados de uma mesma história, como vemos no jornalismo em campo aberto, aprendemos a fazer filtros. As concepções entre defesa, ataque ou neutralidade, são relativizadas. Fiz escolhas! E o preço é alto em radicalizar na opção de defender a quem tem sido alijado da garantia de direitos. Tem um pensador moderno, economista, filósofo, francês, o Sergio Latouche, que prega o “descrescimento” como salvação do rumo suicida que humanidade se submete. Como Latouche, acredito no fracasso dessa Economia, nos efeitos negativos da guerra do Capitalismo, e na barbárie da violência da globalização. Latouche é radical e acha impossível conciliar crescimento econômico e sustentabilidade. Depois de me desencantar com a candidatura da Marina Silva à presidência do Brasil, onde trabalhei como voluntária nas duas campanhas, 2010 e 2014, aprofundo a prática de valores que acredito como Teko Porã (O bem comum), Ubuntu (Sou porque somos) e Ecossocialismo (como crítica radical ao capitalismo). Pago o que não tenho para atuar. Isso ainda é um problema.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Em uma sociedade que tem como uma de suas bases o consumismo, de que forma é possível pensar em “desperdício zero”? Como e por onde devemos começar?

Liliana Peixinho – Pela vontade de mudar o modelo econômico que alimenta um sistema devorador de vidas. Começa na cabeça de cada um, com a razão em ser civilizado; abre espaço no coração, com o outro no eu, e se concretiza em consciência, cuidado e boa informação, para adquirir somente o que realmente é necessário para o bem viver. No sentindo profundo de “Lixo Zero” não existem lixeiras nas ruas. Não há essa necessidade delas – ainda mais quando se usa de forma errada – quando se pratica valores ecossocialistas. Ao absorvemos a Cultura dos 7 Rs (Racionalizar, Reduzir, Repartir, Reutilizar, Repensar, Recriar, Revolucionar….), proposta pelo Movimento AMA, em olhar de macrocontextos planetário, vamos praticar cada R, no momentos certo. A ideia é praticarmos o menos: (ego, consumo, estresse, doença, coisas inúteis) para termos mais (humanidade, felicidade, solidariedade..)

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Na Bahia existem iniciativas ou projetos que incentivem o “desperdício zero”? .

Liliana Peixinho – O Movimento Amigos do Meio Ambiente (AMA), uma das cinco mídias independentes que criei e alimento diariamente, tem elos com catadores, artesãos, artistas, donas de casa, escolas e outros coletivos comunitários, identificados localmente. Na ação: Agenda Ambiental Doméstica, por exemplo, temos o case “Casa Lixo Zero”, do Projeto/livro “Por um Brasil Limpo”. A prática do Lixo Zero é alimentada pelo Desperdício Zero, e tem suas bases na Redução do Consumo em cadeia, para Revolucionar comportamentos, fazer surgir uma nova Economia que priorize a vida, com saúde e harmonia coletiva.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – O que tem sido feito para que iniciativas como essas cheguem à comunidade, de forma que ela conheça e comece a realizá-las conscientemente?

Liliana Peixinho – O Movimento Amigos do Meio Ambiente tem mais de 15 anos de atuação na campanha Desperdício Zero = Lixo Zero = Saneamento 10. Temos uma história de ações em condomínios, escolas, eventos, universidades, de porta a porta, pessoa a pessoa, empresa a empresa, escola a escola, como formiguinhas, onde mostramos, através de rodas de diálogos, exposições fotojornalísticas, oficinas, encontros e difusão de informações Brasil e mundo afora. Como funciona o ciclo Lixo Zero? A partir de cada um, em casa. Qualquer resíduo a descartar, seja um pote vazio de queijo, um saco de açúcar, um jornal, um sapato velho, uma calça manchada, um blusa descosturada, um lençol rasgado, um vidro quebrado, tudo entra no ciclo vivo da Cultura dos Rs. Até mesmo, o mais complicado dos resíduos: o orgânico (cascas e restinhos de alimentos) vira adubo e entra numa outra ação do AMA: “Quintais Verdes”, que promove a produção de hortas, jardins e pomares.

Cada tipo de produto/resíduo faz a trilha inversa ao lixo, passa longe do conceito sujo “lixo”, gerando um ciclo vivo entre quem quer descartar; quem quer, precisa, e gosta de Reutilizar, Recriar com arte. Temos uma agenda com donas de casas, restaurantes, bares, lanchonetes, para não desperdiçar nada. Se antes, por exemplo, era feio levar comida de uma casa para outra, resgatamos costumes dos nossos avôs e nas festas, as pessoas levam suas vasilhas para, em caso de sobras, dividir com quem não teve oportunidade de participar do evento.

Nossa meta é chegar um dia, ao que a Bélgica faz, por exemplo. Existem geladeiras públicas que guardam “sobras de comida” de alguém que, por exemplo, foi almoçar e a quantidade de alimento servido na mesa é superior ao desejo e necessidade do cliente. A pessoa recebe uma vasilha e guarda tudo limpinho, não como resto do prato, mas como sobra do que é servido, e alguém, na rua, com fome, sem tempo ou condição de comprar um prato de comida, vai na geladeira pública, pega o alimento e come. Em Berlim fotografei coletores públicos de sapatos, vidros por cor (branco, azul, preto), roupas, plástico seco, plástico úmido, alumínio, papel, onde tudo, exatamente tudo, pertence a um ciclo vivo. “Lixão”, na civilidade, é palavrão. O Japão por exemplo, apresenta índices de 100 por cento de saneamento. Por que? Não se joga, nem um sequer palito de fósforo, no chão.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Em sua opinião, a academia tem contribuído para que o meio ambiente seja respeitado? De que forma? As pesquisas têm sido fundamentais para melhor a qualidade de vida das pessoas e de preservação do planeta e de suas riquezas?

Liliana Peixinho – A contribuição da academia poderia ser mais eficiente se conseguisse romper elos com macro políticas corporativas e se aproximasse mais, via extensão, de projetos comunitários. É papel da Ciência difundir o conhecimento para a aplicação no cotidiano. Se a realidade revela ambientes sujos, degradados, dilapidados, com a vida em risco, sem ações preventivas em massa, precisamos admitir que a ocupação desse espaço continua com vácuos extensos, entre o que as pesquisas revelam, e o que está em xeque, como demandas reprimidas. Existe um passivo ambiental de mais de 40%, relacionado ao que Latouche chama de ”sobre-crescimento econômico”, devorador da biosfera. A Ciência nos mostra que a capacidade regeneradora da Terra não atende a demandas velozes, onde o homem transforma os recursos em rejeitos, mais rapidamente do que a natureza consegue transformar esses rejeitos em novos recursos. Assim, a Cultura dos Rs que expomos anteriormente, tem seus limites dentro dos ciclo vivos. Precisamos mesmo é parar de consumir o que não nos faz falta.

Agência de Notícias Ciência e Cultura – Como jornalista premiada, qual recado gostaria de deixar para a sociedade baiana, para os jornalistas divulgadores científicos e para a mídia baiana?

Liliana Peixinho – Prêmio é reconhecimento de entrega, trabalho, dedicação, compromisso, em equipe. O Shift – Agentes Transformadores – tem uma Comissão composta por jornalistas, educadores e empreendedores de compromisso com as novas pautas mundiais. Cada voto recebido, Brasil afora, reforça o compromisso com os desafios em promover as mudanças que a vida estar a exigir, e faz tempo. Quero agradecer a cada um que me escolheu como exemplo e dizer da importância e necessidade de se ter mais aliados nesse cenário, triste, desafiador, diante de tanto descaso com a vida. Ao reconhecer uma história de vida dedicada aos desafios, como “Jornalista Desbravadora Socioambiental”, como foi intitulado pelo Prêmio Shift, mais que orgulho, tenho também certa tristeza, porque poderíamos estar trabalhando com as retaguardas necessárias e justas para ir a campo minado de perigo, com alguma proteção. Mas, a história reconhecida pelo Shift destaca exatamente uma exposição profissional desumana, riscos constantes e uma entrega total: corpo, alma, coração e cérebro, para atuar em liberdade investigativa, com o “Outro no eu”, numa escolha que prevalece o que foi apurado em campo, com as vozes, normalmente, invisível, protagonizando fatos. O Brasil é topo na lista de perseguição e assassinatos de jornalistas e ambientalistas que atuam na contramão dos interesses das grandes corporações. Precisaríamos entender que esse trabalho é para defender, preservar, cuidar, da vida. E isso extrapola e muito, o umbigo humano. (Agência de Notícias Ciência e Cultura/ #Envolverde)

* Publicado originalmente pela Agência de Notícias Ciência e Cultura.

Confira abaixo o vídeo premiado

Snapping the streets

Postado em: 1 – Opinião, Entrevistas 2015

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PROTAGONISMO POLITICO FEMININO

Protagonismo Politico Feminino – Marina Silva 2010

lilianapeixinho

A luta da mulher pela conquista de espaço, reconhecimento, direitos e inserção social acompanha o próprio desenvolvimento humano. Muito se conquistou, com certeza, com sangue, suor e lágrimas.  Mídia, movimentos sociais, coletivos de trabalhadoras e a própria instituição familiar estão sempre a destacar a luta da mulher como pessoa, ser humano, mãe, trabalhadora, amiga e os mais diversos e infinitos papéis que a mulher sempre esteve, está e  estará  fadada a desempenhar na construção de novas civilizações. Socializar a essa discussão com ações cotidianas, focar desafios e mudanças para uma Economia circular, cidadã, sustentável é uma nova pauta na velha luta pela preservação da Vida.
 
Se as conquistas femininas por um lado nos enobrece, aumenta a nossa auto-estima, nos honra e nos orgulha, paradoxalmente estar a nos entristecer, fazer pensar, repensar, ponderar, porque essas conquistas deveriam nos fazer mais felizes, menos estressadas, mais harmoniosas e menos exploradas. E isso…

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O Ubuntu de Mandela

A sapiência, paciência e espírito de comunhão de Mandela nos inspira ao ubuntu: ” eu só posso ser eu através de você e com você”. Curar o umbigo e ver o outro é desafio de coragem divida. Madiba nos ensinou a diferença entre vingança e Justiça ao passar 27 anos na cadeia e sair como um pássaro, leve, para novo vôos de liberdade para o seu povo. A humanidade, envolva à pressa capital, esquece-se de Ser e o Ter é prática de não vida. Costume de consumo descartável, rápido, sem valor de história, de compromisso com a preservação das matrizes limpas, como a ar, água e terra, levam o fogo a consumir vidas, aqui e ali, vorazmente, sem escolhas. Há um fio tênue que separa ostentação, de vida simples; prevenção, de desatenção; cuidado, de descuido; falsidade, de lealdade, amor e indiferença.

Quando observamos a pureza dos gestos das crianças, seus sorrisos puros d’alma, suas brincadeiras verdadeiramente alegres, surpreendentes, criativas, cheia de vida, de amor, de cuidado, é de se ficar muito triste quando vemos resultados de descuidos de vida diária onde os próprios pais, por esse ou aquele motivo, negligencia a vida que está alí, à sua frente, aberta oportunidades de crescimento humano, com valor em respeito, alegria, felicidade, compartilhamento, integração. Quando vejo pais muito preocupados em dar muitos presentes, agora em época de Natal, esse comportamento é estimulado, e se matam, se endividam, fazem correrias para encher filhos, netos, sobrinhos, parentes e amigos de presentes, quando um simples gesto de carinho, de atenção, de amor de verdade, com cuidado e tempo de atenção ao Ser, seriam suficientes e básicos, para o bem viver.

Que Mandela possa nos enviar luz de sapiência e cuidados com a vida para cada um de nós que se despede dele, com respeito e alegria, por sua entrega de coragem ao outro e que esse outro possa, vez em quando, parar para pensar como a vida pode ser bem mais bela se aprofundarmos o sentindo da liberdade de forma profunda, onde a dor, com certeza, não estará jamais desassociada da alegria. Historicamente a vida é luta e essa luta sempre foi dos mais fracos contra os mais fortes. Quando poderemos entender que esse sentido raso da vida, baseado no consumo descartável, que endivida e faz perder o sono e o equilíbrio, pode estar mais a serviço da prisão que da liberdade? Vai Mandela, voar em alma limpa, em coração feliz, e mente aberta para o novo, em ambientes de pura civilidade e não nos esqueça Madiba de chamar atenção aqui e ali, que o outro é o espaço da verdadeira liberdade que cada eu necessita como existência plena de vida.

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